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Trabalho actual

A ideia inicial (ver aqui versão em inglês) para o meu trabalho começou com uma constatação simples: havia uma afirmação proferida por muitos filósofos actuais que estava factualmente errada. O meu objectivo inicial era simplesmente mostrar esse erro.

A afirmação era esta: que as nossas teorias mais precisas (neste caso a física) implicam o determinismo. Isto é, que as mesmas causas têm sempre os mesmos efeitos. Esta afirmação, que encontrei primeiro em David Lewis, depois em Putnam e mais tarde em Dennett (e na sua forma mais extrema em Papineau), levou-me a pensar que seria possível fazer um trabalho simplesmente a demonstrar que a física quântica não implica esta visão, pelo contrário, a grande revolução da física do século XX, que esteve na base das célebres discussões entre Einstein e Bohr (alargada, é claro, a outros físicos), foi precisamente esta ideia: a física quântica já não implicava o determinismo. O mundo, visto por esta nova perspectiva, não tem propriedades bem definidas antes de uma observação. É a interacção entre o observador e o fenómeno atómico observado que leva à 'existência' de uma realidade bem definida. (Isto é apenas uma (na verdade a principal) de várias interpretações possíveis da física quântica, mas basta que esta interpretação seja de facto aceite por uma grande parte da comunidade científica para mostrar que o argumento dos filósofos acima mencionados não era válido, a não ser que negássemos o que a maioria dos físicos diziam sobre as suas próprias teorias.)

Ora, mais tarde vim a compreender que de facto não era assim. Muitos filósofos (e certamente incluindo aqueles que referi) tinham um conhecimento bastante completo do que se passava no mundo da física quântica, pelo menos tão bom como o meu, pelo que a simples apresentação da teoria e da sua interpretação estava longe de ser suficiente. De facto há vários factores adicionais que tendem a mostrar a inevitabilidade do determinismo.

  1. Logicamente parece difícil conceber que as mesmas causas possam ter efeitos diferentes, no entanto, é precisamente isto que se parece verificar ao nível atómico. Mesmo assim, muitos filósofos preferem pensar que são as teorias físicas que irão voltar a ser deterministas, e não que descobrimos que o mundo opera segundo princípios que não são perfeitamente concebíveis logicamente.
  2. Conceptualmente parece difícil conceber claramente a liberdade como fruto quer do determinismo quer do indeterminismo. Isto acontece porque um evento incausado parece ser necessariamente ao acaso (sem causa). Ora obviamente a nossa concepção de liberdade não é de uma acção ou acaso, embora seja de uma acção não determinada. No entanto é muito difícl explicar em que sentido pode uma acção não ser determinada e também não ser ao acaso. Neste sentido, a nossa experiência da liberdade parece não poder ser facilmente (ou de todo) transmitida pela linguagem, na medida em que somos incapazes de explicar como é que um evento pode ser incausado sem ser ao acaso (caótico).
  3. Empiricamente parece que o cérebro é a causa das nossas acções conscientes, e parece também que o cérebro não é afectado pelo indeterminismo que impera no mundo da física quântica. Ou seja, as investigações corrente levam a pensar que os organismos biológicos operam mais como máquinas do que de forma indeterminista/espontânea (como os electrões parecem fazer).
  4. Psicologicamente podemos constatar facilmente que as pessoas são determinadas pela sua cultura, história, hormonas e não sei que mais. Seria no mínimo estranho que fôssemos livres e depois que todas as americanas pensassem e se comportassem de uma certa forma, todas as francesas de uma outra, e todas as portuguesas ainda de uma outra (o que, até um certo ponto, acontece). Portanto, parece que empiricamente, a própria observação do comportamento humano (e animal) nos levaria a pensar que não somos livres.
  5. Politicamente parece também incorrecto defender uma perspectiva indeterminista já que a pergunta seguinte seria: então o que é que decide, se não é o que aconteceu antes? E a resposta parece só poder ser: tu próprio. Tu és a causa última de (pelo menos) algumas das tuas acções (ou alguns tipos de acções, como dirigir o pensamento). E isso poria questões em relação à alma que nos poderiam conduzir de novo a uma sociedade comandada pelo pensamento religioso, intolerante, místico, obscurantista, etc.
Ou seja, percebi que aquilo que motivava o argumento destes filósofos não era a sua validade empirica (porque de facto não a tem) mas um outro conjunto de questões mais complexas e difíceis de resolver.

Neste momento estou a tentar fazer um trabalho que responda aos vários níveis de argumentação. Por exemplo, do ponto de vista político, apesar de pensar que a posição indeterminista tem riscos, penso que seria salutar mudar de perspectiva, já que existem muitos riscos também de banalizarmos o humano e tornarmo-nos assim indefesos perante a utilização sem limites das novas tecnologias da manipulação genética, hormonal, psicológica (media, psiquiatria, etc) e física (lobotomia). Ou seja, se a nossa preocupação é proteger a nossa sociedade aberta, devemos pelo menos manter a dúvida sobre a natureza real da acção humana (ou pelo menos é isso que defendo).

E pronto, in a nutshell, é isto.

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Mais recentemente (a partir de 2001) tenho-me dedicado também à relação, aparentemente misteriosa e talvez irreconciliável, entre o ponto de vista objectivo e subjectivo. No seguimento das outras abordagens pode dizer-se que vivencialmente a liberdade parece evidente enquanto que teoricamente parece impossível concebê-la ou explicá-la . Essa abordagem é hoje utilizada sobretudo no âmbito da filosofia da consciência. Deixo aqui uma passagem retirada do livro de Colin McGinn, The Mysterious Flame (1998), onde é exposto esse contraste aplicado à consciência:
"It is difficult to escape from your own consciousness - your perceptions, feelings, thoughts, desires. Once your consciousness vanishes, so do you. It is with you always, a perpetual humming presence. There is nothing more evident to you than your existence as a conscious being. Yet consciousness is perplexing. What is consciousness? Where does it come from? How is it connected to the entity we call the body? What does the activity of the brain have to do with it? Consciousness cannot be seen or touched or pulled apart or tasted, despite its intense familiarity. It is self-evident and yet deeply puzzling. There is something special about it." (p. i)

Ou seja, de um ponto de vista teórico não conseguimos explicar a liberdade como sendo fruto quer do determinismo quer do acaso, tal como não conseguimos explicar a consciência como sendo fruto, quer de algo material, quer de algo imaterial (dizer que a consciência é imaterial só aumenta o mistério não o resolve). No entanto, esta impossibilidade teórica não evita que a consciência esteja na base de toda a ciência (todas as teorias seriam menos do que ficções sem ela), tal como a liberdade está na base do sentido que damos à acção humana (que sentido faria a vida se todas as minhas acções e as de outros estivessem já determinadas desde o início dos tempos?).