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Trabalho actual: outra visão

O meu trabalho actual centra-se em torno da liberdade e do modo como esta é entendida (ou pode ser entendida) numa concepção científica do mundo. Este tema é importante porque a concepção científica do mundo e do lugar que o homem tem nele está, pelo menos aparentemente, oposta às concepções tradicionais. Isto acontece numa variedade de aspectos. Por exemplo, segundo a ciência o planeta tem mais de quatro biliões de anos, o homem desenvolveu-se a partir dos animais, e o seu aparecimento, bem como o de todas as espécies na terra sucedeu-se ao acaso, sem qualquer intervenção inteligente. É um verdadeiro exemplo de que o mais complexo pode surgir do mais simples, dadas certas condições.

Esta concepção moderna do homem e do mundo vai frontalmente contra os modelos religiosos que eram o fundamento político da Europa desde a idade média. A derrocada dos suportes religiosos levou-nos a um novo tipo de sociedade, ainda não completamente implantada, fundada na distinção entre os poderes religiosos e do poder político.

Penso que é relativamente consensual dizer que esta viragem para longe do poder religioso criou uma sociedade mais 'aberta' (embora a autoridade religiosa continue a funcionar para aqueles a que a ela se submetem para dar resposta a certas necessidades emocionais, ela está despida da autoridade que uma fundamentação teórica certamente lhe daria), no entanto ela abriu também as portas para a entrada em cena de novas formas, mais ou menos dissimuladas, de poder, e do outro lado da mesma moeda, abriu também as portas para um certo desespero face a um mundo onde o homem, mais do que criador é vítima, utilizado, manipulado, pelos seus genes, desejos, sentimentos, apegos, etc.

O meu trabalho é uma tentativa de combater estas duas frentes, não tanto directamente (apresentado os eventuais culpados de tentativa de usurpação do poder agora em aberto, mostrando o desepero a que a visão que a ciência nos propõe pode conduzir) mas indo à base do problema que creio ser esta: a visão moderna da ciência, mais especificamente a dinâmica de Galileu, transformou a nossa visão do homem de um ser livre, criativo, a ser testado por um ser divino, numa máquina, complexa demais para se entender a si própria, sistematicamente (e talvez até necessariamente) enganada acerca dos verdadeiros motes das suas acções (o amor é apenas a necessidade de procriar, o resultado da entrada de certas hormonas na circulação sanguínea, etc).

O desenvolvimento da tecnologia, da psicologia, da engenharia genética, aprofundam ainda mais esta visão. No futuro será talvez possível não só alterar o humor, inteligência, produtividade, afectos, etc, do indivíduo, mas ainda criar um indíviduo já com as características desejadas.

Ou seja, a falta de autonomia (o que Kant chamaria de heteronomia) do ser humano é levada ao seu extremo. E isto levanta certas implicações políticas e para o indivíduo que são as que verdadeiramente me interessam:

Continuaremos a ser dignos se nos descobrirmos apenas máquinas?
Até que ponto é permissível alterar uma pessoa?
Haverá diferença, no futuro, entre amar uma máquina que simule na perfeição um ser humano, e amar um ser humano? Deveria haver uma diferença? Será que as máquinas poderão algum dia sentir? E porque não/sim?

Isto de um ponto de vista teórico, e estas, aliás, são as únicas questões que posso colocar verdadeiramente num papel. Mas aqui posso acrescentar também que me interesso por outro tipo de questões, ligadas ao desenvolvimento da criatividade. Por analogia digamos que seria o mesmo que estar interessado em saber como é possível alguém equilibrar-se numa bicicleta (como funciona o cérebro, os nervos, a gravidade, os músculos e tendões, o piso, os pneus, etc) e ao mesmo tempo estar interessado em aprender a andar. São coisas diferentes e (pelo menos aparentemente) independentes, no entanto estou realmente interessado nas duas. A aprender a desenvolver a minha criatividade e, ao mesmo tempo, a compreender o que é a criatividade (um processo mecânico extremamente complexo ou um reflexo da luz divina?). A diferença é que penso não haver qualquer maneira de colocar os resultados de desenvolvimento da criatividade no papel (a não ser indirectamente, por estar na origem do próprio raciocínio).

Portanto, regressando ao ponto de vista teórico podemos dizer que a questão central é esta: será a acção consciente, a criatividade, a liberdade, apenas o resultado mecânico de um longo processo computacional, ou haverá espaço no nosso mundo para uma acção original, isto é, para algo acontecer sem que outra coisa lhe tenha dado origem?

Isto levanta questões lógicas e empíricas. Do ponto de vista lógico, não é claro que a noção da criação ex nihil seja coerente, sobretudo quando pensamos que não seria uma criação caótica mas ordenada. Existem vários problemas para defender que algo nasce do nada, mas que, ao mesmo tempo, não é ao acaso.

Do ponto de vista empírico é também preciso investigar se aquilo que sabemos do mundo já não é tanto que impeça que esses mecanismos possam existir sem estar em contradição com as leis da ciência que já conhecemos. Na verdade, para alguns investigadores, a física quântica seria uma porta aberta para este tipo de fenómenos, já que parece haver um indeterminismo irredutível, que poderia ser aproveitado e amplificado em certos mecanismos cerebrais de modo a influenciar o comportamento humano (isto é, de modo a tornar o comportamento humano não mecânico, mas radicalmente criativo, ou seja, tendo, pelo menos em certas circunstâncias, em si próprio o seu próprio fundamento).

Há também uma ligação pouco clara com a religião, uma vez que, se esses mecanismos fossem realmente descobertos, poderia haver um revivalismo religioso alimentado pela esperança numa vida futura, já que se sabia agora que o homem não era apenas uma máquina. Apesar de a descoberta, de um ponto de vista lógico, não aumentar a plausibilidade das perspectivas religiosas, uma vez que existe já uma motivação emocional esse revivalismo poderia ocorrer inicialmente. E a verdade é que várias pessoas teceram críticas à utilização da física quântica para mostrar a liberdade humana, também por medo das consequências políticas que daí adviriam.

No entanto, estou convencido que esta ligação é muito frágil. Em primeiro lugar, o facto de haver uma criatividade real (isto é, de haverem acções vindas do nada, não caóticas) pode existir ao nível dos animais, e até de sistemas físicos atómicos. Se quiséssemos dar ao homem uma nova dignidade com base na sua recém adquirida liberdade teríamos de a transmitir a todo o universo. Por outro lado o facto de haver liberdade não nos mostra de onde é que ela vem ou o que isso significa. Certamente não se segue inevitavelmente que tudo isto seja um teste, ou uma brincadeira, ou a imortalidade da alma, ou algum outro argumento paralelo.

Mas um argumento para mim mais forte é o de que sem essa liberdade o homem está igualmente sujeito a um outro tipo de despotismo. Certamente não o despotismo dos padres e das cúrias e da Santa Inquisição, mas o despotismo do psicólogo, do sociólogo. Armados com teses, palavras duras e complexas, comprimidos e instituições disciplinares, este conjunto de cientistas é bem capaz (e não por mal, tal como a Santa Inquisição estava infundida dos melhores ideais) de criar uma ditadura mais eficaz e mais terrível do que qualquer que tenhamos experimentado até aqui.