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From: Pedro Fonseca [mailto:pf@pedro-fonseca.com]
Sent: Monday, July 14, 2003 12:16 AM
To: kung-fu-toa@yahoogroups.com
Subject: [kung-fu-toa] Isto é bom ou mau para ti?

            Boas!!

 

Gostava de pôr esta questão ao grupo:

 

Haverá alguma ciência, arte ou discurso que esteja mais próximo do transcendente (que retracte melhor), ou estará tudo in the eye of the beholder?

 

Por exemplo, será que o Kung Fu está mais próximo de nos proporcionar a viagem ao transcendente do que a pastelaria (por exemplo) ou será que apenas parece estar porque esse é o nosso caminho?

 

Talvez no fundo qualquer coisa possa servir de trigger para o transcendente, de via, de caminho.

 

Para certas pessoas pode ser o sexo, para outras o asceticismo, para outras a luta, para outras a paz total, para uns o conhecimento, para outras até esta conversa enjoa... guiar carros, curtir mulheres, ser um devoto da missa, qual a diferença se isso tanto pode ser alienante como libertador? Qualquer coisa, mesmo o Kung Fu, pode ser alienante. Qualquer discurso, qualquer coisa, pode ser alienante ou libertador.

 

Então o que distingue? O que faz com que algo seja bom numa certa circunstância e mau noutra?

 

Quanto a mim, aquilo que distingue o conhecimento (exterior) da vivência (interior) é que a segunda não pode ser expressa por nenhuma linguagem, mas apenas de modo directo (por um ‘toque’). Tudo o que nos ‘toca’ é capaz de nos levar mais além nessa vivência, mas um simples sorriso pode tocar mais do que toda a sinfonia cósmica que nos rodeia. Tudo depende do sítio em que estamos abertos, do que estamos dispostos a deixar entrar, a amar.

 

 

 

 

-----Original Message-----
From: Pedro Fonseca [mailto:pf@pedro-fonseca.com]
Sent: Tuesday, July 15, 2003 1:06 PM
To: kung-fu-toa@yahoogroups.com
Subject: [kung-fu-toa] RE: Interior e Exterior: o verdadeiro conhecimento.

Eu ainda estou a tentar compreender melhor esta questão, há muitas coisas que me suscitam dúvidas, e sinto que quase tudo, excepto um ou dois pontos, estão ainda difusos.

 

Por um lado ‘o Tao que pode ser dito não é o verdadeiro Tao’, por outro lado, há receitas para bolos, e há receitas para a Vida.

 

Ler Manuel Luís Goucha não é o mesmo que ler Hermann Hesse. Ler

 

“uma obra de coisas “pecadoramente gostosas”. Mais afirma Manuel Luís Goucha, autor da presente obra afirmando que é a doçaria “Alimento supremo de ócios e gulas, para nobres e coroados, fidalgos de fim de raça”. A selecção de receituário é apurada, revelando um trabalho de recolha meticuloso.” (http://spg.sapo.pt/XdJ1/378630.html)

 

não é o mesmo que ler

 

"The very effort to "become" is a barrier because you are already carrying your being with you. You need not become anything - simply realize who you are that’s all. Simply realize who is hidden within you." (Rajneesh - ver msg anterior de ‘voyage180’)

 

E no entanto, para quem tem a compreensão do todo, até uma pedra fala de todo o cosmos. Um cientista actual pensa que o universo começou apenas com elementos leves (hidrogénio e hélio) e que todos os materiais pesados, incluindo a pedra que está na sua frente, foram engendrados na fornalha das estrelas (que transformam esses materiais leves em materiais mais pesados (com núcleos com mais protões, etc)) e paridos apenas em alguns casos, em violentas explosões de novas e super-novas (estrelas tão grandes que explodem no final da vida). Sabe portanto, que ele não poderia existir sem que houvesse uma enorme estrela antes dele, que cozinhasse a matéria que compõe cada uma das suas células, e a vomitasse no final da sua vida. É isto o nosso sistema solar, o resultado da explosão de uma estrela agonizante... No entanto, um místico não precisa de estudar física para saber isso, ele olha para a pedra e compreende-a, não ‘por fora’ mas ‘por dentro’. Ele sabe/sente que ele e a pedra estão ligados por um laço vital, tão forte como o que o prende à sua mãe e pai naturais e a toda a natureza. Ele sabe, intimamente, no seu íntimo, que ele é ‘um’ com toda a natureza, que, na realidade profunda do Ser, não há distinção entre Ele e o Outro, ou entre Ele e Todas as Coisas.

 

Mas este conhecimento não lhe explica o que é a fusão termonuclear dentro de uma estrela, nem lhe diz como funciona um motor Wankel (nem sequer um a 4 tempos!!). São géneros de conhecimento diferentes e distintos, que não se tocam.

 

Agora, será que um sábio/místico assim conseguiria ver alguma diferença entre o texto de Rajneesh e o de Manuel Goucha? Uma diferença superficial sem dúvida: um é mais ‘concentrado’. O texto de Rajneesh está menos ‘dependente’ de relações com o exterior para se compreender a sua verdade e beleza. Para compreendermos o carácter uno, divino, do texto de Manuel Luís Goucha temos de recorrer a outras coisas, talvez não às estrelas e à fusão termonuclear, mas ao prazer de dar pela comida, aos serões passados em alegre conversa, à possibilidade de amar o outro através do paladar, da partilha do paladar, da arte de ‘passar o tempo’ a fazer algo que a sociedade diz não ser inteiramente útil, de se revoltar contra o stress do presente e afirmar a eternidade do momento em cada doce, em cada paladar, em cada prazer da boca.

 

Tudo isso lá está, mas está mais ‘diluído’. É preciso fazer apelo a outras coisas para entender. Mas está lá na mesma.

 

Por isso é que eu digo: não existe um discurso mais perto do real, porque todos os discursos são efeitos do real, são histórias que o real inventa, são, como ficções, como nós, parte de uma estória maior: a História Interminável de todo o Universo e de Tudo. Quem compreende verdadeiramente isto já não vê diferença, percebe que um polvo ou uma baleia pode ser mais espiritual do que um asceta, que a montanha também fala com Deus, que a árvore que está ali é um poço de Amor. E os seus discursos são um pouco mais concentrados, um pouco mais eminentemente belos.

 

Os discursos servem para quem quer aprender, para se exibir, para ensinar, para partilhar, para evoluir, mas não são diferentes das margens e dos seixos que formam a rota e o leito de um rio. Eles são ainda o sinal das nossas dependências e, absolutamente incapazes de nos dar o divino porque tanto ansiamos. Vão ver o mar, não leiam mais, que eu também não escreverei mais, por agora...

p.