(Citações:)

 

“A vida é selvagem.

O amor é selvagem

E Deus é absolutamente selvagem.” (Rajneesh, Tantra - a suprema compreensão, p.163)

 

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(Diversões:)

 

“nem afirmar o que não se conhece, nem negar o que se vê: é o que é.”

 

 

O que é que o Kung Fu tem em comum com a ciência? Ambos vivem num clima de competição. Ganha quem consegue analisar com mais detalhe, amplitude e imparcialidade uma certa situação. No caso da ciência (sobretudo dos extremos: física e astronomia) trata-se de matematizar o real. Encontrar situações que combinam a rigidez (necessariamente ‘se ... então’) com a fluidez (como a função 2x=y). A força é dada pela precisão da observação: “o electrão tem uma carga de 0,000000000000000000016021917 joules”. E isto permite fazer do mundo (as cidades em que vivemos) algo que ultrapassa em muito qualquer conto de ficção científica de apenas alguns séculos atrás.

 

O mesmo acontece no Kung Fu, o clima de competição significa que os preconceitos não sobrevivem muito tempo. Porque um preconceito só pode ser útil enquanto a verdade não se torna conhecida de todos. Insistir em que uma certa técnica é infalível só é útil quando o adversário desconhece as suas falhas. A eficácia exige a avaliação correcta quer dos pontos fortes quer dos fracos.

 

Ou seja, a competição, a luta, favorece a imparcialidade em relação ao exterior, porque a imparcialidade está na origem da eficácia. Sem verdade a eficácia acabará sempre por falhar, e é o adversário que for capaz de ver ‘mais além’ que ganhará. Não é o dogmatismo mas a procura de erros, que está na base do sucesso da astrofísica moderna (não falo da neurologia por exemplo, nem sequer da biologia, e muito menos da psicologia ou da sociologia, onde as coisas já não são tanto assim). Do mesmo modo é na procura de erros que se encontrará o software ou hardware mais estável, as empresas mais bem sucedidas, os ataques mais fatais (na rua ou na guerra contra o Iraque, por exemplo).

 

O realismo, a chamada ‘objectividade’, tornou-se a pedra chave da nossa sociedade. Quer para fazer guerras, construir economias, diagnosticar doenças, desenhar televisores, etc. No entanto a objectividade ocidental consegue-se à custa de uma baixa: nega-se tudo aquilo que vem do espírito. Sabemos tudo sobre o som, mas nada sobre a música. Podemos construir insonorizadores, determinar a frequência, intensidade e velocidade do som em vários condutores com grande detalhe, mas o segredo da musicalidade permanece intocado por estes avanços.

 

Poderá haver imparcialidade relativa a outras coisas que não a situações exteriores? Poderemos por exemplo achar que faz sentido falar de imparcialidade face a gostar de um quadro de van Gogh, ao sabor da cerveja, à fuga BWV 865 de Bach? Será que quando dizemos que gostamos de algo de que alguém não gosta nós (ou essa pessoa) estamos a ser parciais?

 

O sabor da cerveja (Carlsberg por exemplo) é bom ou mau? Ou é o que é? Lembro-me de uma altura em que enjoei o chocolate. Não conseguia comer (tal como hoje ainda não consigo comer figos). Depois voltei a gostar. Será que o sabor do chocolate para mim mudou? Ou terá mudado a minha reacção ao sabor do chocolate? Terei deixado de dizer ‘detesto’, ‘adoro’, para passar a dizer: ‘quando me apetece como’?

 

A resposta a esta questão pode ser encontrada se nos debruçarmos sobre o significado da expressão ‘eu gosto’ (ou expressões do mesmo tipo, que expressem preferências). Será que ela refere uma constatação ou uma convicção/imposição?

 

Na nossa sociedade as convicções acerca dos objectos físicos são depreciadas em favor da observação imparcial. Assim, oficialmente, a astrologia, a premonição, etc, são enfaticamente rejeitadas por revelarem os nossos desejos de uma falsa segurança (gostava que o mundo fosse assim) mas não a realidade (o mundo é assim). No entanto, face à vivência interior, não se estabelece a mesma distinção: não se procura evitar os falsos atributos de um eu que só existe na imaginação. E isto acontece em parte porque a nossa sociedade se alimenta dessas mesmas convicções insustentáveis que negam a vivência interior (mas que fazem a sociedade funcionar criando o ‘eu polícia’ o ‘eu bombeiro’ o ‘eu homem de negócios’ o ‘eu radical’, etc, à medida que vão sendo precisos). Por exemplo, dizemos que somos Portugueses, do clube x e do partido y, de direita ou esquerda. Dizemos que os outros estão errados, ou que temos de defender os ‘nossos’ interesses. Toda a organização social se alimenta destas convicções.

 

Assim aprendemos a diferenciar entre o ‘objectivo’ – aquilo que a ciência deve ser – e o ‘subjectivo’ – aquilo que as pessoas estão autorizadas a ser. Em nome da liberdade defendemos a subjectividade: damos o direito às pessoas de serem diferentes. Isto até poderia funcionar bem, mas na prática a sociedade não ensina as pessoas a respeitarem, nem sequer a observarem, o seu interior. Essa liberdade de ser diferente não tem tanto a ver com uma questão de seguir o seu caminho, mas tem a ver sobretudo com seguir um certo modelo exterior, de pertencer a... (podes ser tudo o que quiseres, olha para as opções, mas não faças aquilo que não pertence a nada excepto a ti mesmo: ‘tu és estúpido ou quê? Queres ficar sozinho?’) Tem a ver com a liberdade de ‘ser do’ sporting ou do benfica. Com a liberdade de ‘pertencer’ ao PSD ou ao PCP (ou ao Kung Fu), de ficar viciado no computador ou na televisão. Tem sobretudo a ver com a liberdade de ‘encaixar’ num certo molde. De se tornar um fantoche, uma parte do sistema.

 

Os Kung Fus (em geral) não fogem a esta regra, porque a eficácia do Kung Fu, assim como a eficácia de qualquer técnica virada para o exterior, exige apenas a imparcialidade relativa ao exterior. Por exemplo se quero construir um barco tenho que conhecer o suficiente sobre impermeabilização, resistência dos materiais, etc. Mas não preciso de reflectir sobre ‘para que quero eu o barco’. Da mesma forma o melhor mestre de artes marciais, assim como o melhor astrofísico, pode nunca ter reflectido sobre a questão: ‘porque faço isto, porque é importante para mim?’ (É óbvio que isto não se aplica às aulas do Guilherme!!!)

 

De modo geral o respeito pelo interior nunca pode ser conseguido seguindo o conselho dos outros, lendo o que os outros escrevem, ou aceitando ou negando o que eles nos dizem (tal como o Guilherme disse: do exterior não vem Tao nenhum!). No máximo, podemos reconhecer em alguém o respeito que essa pessoa tem por si mesma, e talvez, se essa pessoa nos respeitar, possamos ser induzidos a respeitarmo-nos a nós próprios. (O melhor que podemos fazer para que os outros se respeitem a eles próprios é respeitá-los.) Mas a verdadeira imparcialidade em relação ao interior só começa quando pomos a observação e a aceitação do que somos aqui e agora acima dos preconceitos. E isto exige a superação do medo, pois são precisamente os preconceitos que, na nossa sociedade, garantem a aceitação pelos outros. Ou seja quando em vez de dizer: sou benfiquista digo: hoje apetece-me torcer pelo benfica (se isso for verdade). E sobretudo quando observo as razões que me levam a torcer pelo benfica, quando as observo e aceito, quando aprendo a observar-me e a aceitar-me plenamente e a agir de acordo com o que sou.

 

Provavelmente o respeito pelo interior nem sequer se consegue escrevendo sobre o respeito pelo interior. Porque, no fundo, estamos apenas a construir mais convicções sobre o modo como devem ser as coisas, como eu me devo aceitar ou não me posso negar. Tudo isto, mesmo esta frase, é uma cilada subtil. É parcial. A imparcialidade em relação ao interior, a totalidade, o mapa do todo, vem da própria vivência, na própria vivência...

 

Aqui... agora.

(continua)