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[Esta conversa veio a propósito da ideia de que um combate que pode ser muito difícil para um iniciado - por exemplo, combater com três pessoas ao mesmo tempo - pode ser fácil para um avançado. - Supostamente um mestre em Kung Fu utiliza a "confusão" de um combate com muitos oponentes para seu proveito - tipo à Bruce Lee! Daí uma conversa sobre o que significa ser um "iniciado" ... )

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From: [email protected] [mailto:[email protected]] On Behalf Of Luísa Martins
Sent: terça-feira, 16 de Maio de 2006 12:48
To: [email protected]
Subject: RE: [kung-fu-toa Mailing List] Amigo imaginário...

Pedro,
"mais dificuldade" ... do ponto de vista do principiante (?), ih
.
 
Luíza

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From: [email protected] [mailto:[email protected]] On Behalf Of Pedro Fonseca
Sent: quarta-feira, 17 de Maio de 2006 12:15
To: '[email protected]'
Subject: RE: [kung-fu-toa Mailing List] Amigo imaginário...

Bem, eu só posso falar como um iniciado (e tu, que me conheces bem, sabes que é só isso que sou!), e um iniciado tem milhares, infinitas coisas a dizer sobre o que quer que seja. Mas acho que um avançado só teria uma. Estive ontem a ouvir uma música do Bob Dylan, onde ele diz:

“The answer my friend is:
            Blowing in the Wind”

Talvez a resposta para tudo seja isto: evaporar-se no Vento, e deixar que tudo aconteça!!!

Jinhos, p.

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From: [email protected] [mailto:[email protected]] On Behalf Of Luísa Martins
Sent: sábado, 20 de Maio de 2006 14:22
To: [email protected]
Subject: RE: [kung-fu-toa Mailing List] Amigo ...

Pedro
 
palavras que me fazem pensar mais do que muitos “pensamentos”.
 
Por vezes foco a(s) palavra(s) e derivo ideias e pensamentos só com base nela(s), e descontextualizo-me. Mas isto tem a ver com particularidades da minha relação com a linguagem verbal-escrita que me activa os sentidos e me proporciona visões enquanto símbolos. Especulo, penso, espontaneamente, e depois prossigo com construções dirigidas pela Inspiração e comoção estética das linhas desenhadas no sobressalto vivencial, sendo muitas das construções autênticos castelos de areia, aliás, como convém, por não serem conclusivas.
 
Usei o termo “principiante” não tanto por oposição a “avançado” mas para distingui-los. Esta distinção é vertical, quero dizer, pertencem a dimensões distintas, não são polaridades na mesma dimensão.
 
Quando damos os primeiros passos num caminho (da Consciência, p.ex. ) somos principiantes. Seja nos primeiros 7 passos, nos primeiros 100 passos ou nos primeiros 1000, enquanto a sensação de principiante se mantiver é porque ainda vamos... no princípio. Quantas vezes repetimos alguns passos ora porque queremos dar mais balanço, ora porque queremos dá-los mais firmemente, com mais coragem, com mais verdade, com mais certeza, com mais atenção, com mais flexibilidade... Outras vezes repetimo-los porque são tão sensacionais que queremos sentir uma e mais vezes assim. Outras vezes damos passos mas é só a fingir, outras após os primeiros corremos desabridamente não saindo, no entanto, dos primeiros passos.
 
As experiências do princípio são fundamentais, como diz Pitágoras: o princípio é metade de tudo...
Por outro lado, creio que serei sempre principiante até saber que o caminho não tem princípio nem eu principio nele. E então, ao chegar aqui, sou avançada porque já não sou a mesma, não estou apenas transformada, mas transmutada. É outra dimensão.
 
Mas até lá não sei o que é ser avançada, apenas sei! que é possível avançar. Também não consigo projectar dificuldades porque não sei se o mundo das dificuldades de agora não serão apenas um mundo de possibilidades, sem necessidade de esforços. Também não creio em graus de dificuldade para medir capacidades, como se fossem medidas justas de avaliação, assim como não creio na força para atribuir vitórias ou poderes.
 
 
A palavra latina initiare significa mostrar a via conducente às profundezas secretas. Todos nós somos iniciados no KungFu (que é um código) quando damos por nós de facto a aprofundar... num gesto - forma ou técnica - num cumprimento ritualístico, na entoação do To’A, no olhar que cruzamos com o outro no combate, num estiramento... mas principalmente e acima de tudo quando ocorre uma ressonância holística e vemos que os nossos limites/condicionamentos (físicos, emocionais, psicológicos...) não são barreiras. E no processo expansivo ninguém se não nós próprios pode confirmar quem somos ou onde estamos, porque ... é secreto. É o Reino da Consciência.
 
Deixo-te estas considerações... muito incompletas
 
Altos são os voos do Pensamento,
Grandes são as quedas na espuma do Mistério do Ser.
 
Um abraço,
Luíza


 

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From: [email protected] [mailto:[email protected]] On Behalf Of Pedro Fonseca
Sent: terça-feira, 23 de Maio de 2006 12:18
To: '[email protected]'
Subject: RE: [kung-fu-toa Mailing List] Amigo ...

Querida Luíza,

O teu texto é lindo, verdadeiramente iniciático, para uma jornada nas profundezas / e alturas da mente, do Ser e do Coração. (espero não te estar a “prender” com estas palavras)

Não vou tentar acrescentar nada, só dizer que ando muito na onda da dissolução, acho que o Bob Dylan conseguiu por uns tempos, e o Paul Simon diz uma coisa gira:

     “We’re not important
     We should be grateful”

Há tempos ia de carro pelos montes aqui da zona e reparei como tudo respirava alegria ao meu redor. As árvores e o céu e as nuvens e os rios... e então pensei: como é possível alguma vez ter-me sentido sozinho neste mundo maravilhoso? É que, e a resposta era óbvia, quando estou muito centrado em mim, estou cego ao exterior, e daí sentir-me só.

Mas quando a voz se reduz a um murmúrio, e tudo o resto canta dentro de ti... compreendes como as gerações passadas e futuras cantam o teu amor, o mesmo amor há gerações e gerações...

E então é impossível sentires-te só. Quando és pó de poeira, das estrelas, do vento, de paixões, é todo o mundo que canta em ti/mim

  Dissolução

Beijos :) P.